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AS VELHAS QUE NÃO SE ACEITAM

por sopa-de-letras, em 15.03.16

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REALIDADE EM PINTURA

 

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FICCAO EM FOTOGRAFIA

 

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publicado às 23:06


RECTA FINAL

por sopa-de-letras, em 17.03.13

 

Visito todos os fins de semana um lar de idosos (home care), no pais em que vivo.

Nao sei bem descrever o que senti na primeira vez que la entrei.

Tem o aspecto de uma casa de familia de grandes dimensoes, o que acho bom, para que o impacto nos idosos, seja menor.

Nao sei como sao em Portugal, entrei apenas tres vezes, sempre no mesmo, que mais se parecia com um hospital.

Contudo, nao deixei de sentir um aperto no coracao, quando olhei em redor do salao, onde se encontrava a maior parte dos habitantes.

Pensar que lutamos a vida toda, para acabarmos num lugar estranho, esperando que a morte chegue, deixa-me um sabor amargo na boca.

Doi-me que a minha mae tenha que la estar, mas eu, como a maior parte das pessoas, nao tenho condicoes de a ter em casa. Porque sofre de doenca mental, nao a posso deixar, durante o dia, enquanto trabalho, aos cuidados do meu pai que ja tem oitenta e sete anos, e mal pode tomar conta dele. Para alem disso, durante a noite nao deixa descansar ninguem, o que `e um problema, para quem , no dia seguinte, tem que trabalhar.

No caso dela, sofro mais eu, do que ela, que nao tem bem a percepcao das coisas.

Mas ha muitas situacoes em que assim nao `e.

Quase todas as vezes que la vou,me apercebo que, muitas daquelas pessoas, sofrem por estarem fora das suas casas e das suas familias.

Vive la uma cadelita, pertenca de uma das velhotas, que se recusou a separar-se dela , quando deu entrada. Digamos que `e a ligacao dela ao passado e ao mundo exterior.

Quando chego e cumprimento, sempre se estampa um sorriso na maior parte dos rostos, e algumas delas tem sempre alguma coisa a perguntar ou a dizer.

Nota-se que precisam de atencao, e `e visivel uma certa ansiedade, talvez porque esperassem ver entrar algum seu familiar.

Raramente la encontro alguem a visitar.

Ha uma pergunta que se repete todos os fins de semana. Quando comeco a falar, perguntam sempre: - de onde `es ?

Percebem pelo sotaque que sou estrangeira,mas depois esquecem-se, e no domingo seguinte voltam a perguntar.

Hoje, eu e a cadela, fomos o divertimento da tarde, jogando a bola no meio da sala. A cadela `e gira, eu jogava a bola para ela, e ela com o focinho jogava para mim. Se eu parava, ladrava-me. 

O dialogo que hoje me marcou:

- Eu sou a Ruth.

- Ola Rut.

- Nao.......Ruth.

- Ok, desculpa Russ.

- Nao...Ruth...Ruth...(com a lingua entre os dentes)

  ( o th dos ingleses, que eu jamais conseguirei pronunciar correctamente)

- De onde `es?

- Eu sou de Portugal, e tu de onde `es?

- Sou de Epsom.

- Ok, entao estas perto de casa.

- Sim...tu gostavas de viver nesta casa?

  Nao esperava aquela pergunta, parei um pouco. Depois respondi:

- Sabes, durante alguns anos, eu ainda tenho que trabalhar, mas quando chegar a minha altura, acho  

  que nao vou importar-me de viver numa casa como esta.

- Pois....`e uma casa agradavel....

  Rematou.

Passado pouco tempo, ouvi-a a dizer a outra velhota:

- Daqui a uns dias vou para casa.

 

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publicado às 18:57

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