Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



7CSRADIO

Loading ...


contador de visitas online


QUEM NAO SE LEMBRA DA MENINA CORONEL?

por sopa-de-letras, em 16.02.14

 

 

MORREU SHIRLEY TEMPLE

 

A menina dos caracóis foi a mais precoce das estrelas de cinema, com estreia nos filmes aos três anos de idade. Shirley Temple animou os norte-americanos no grande ecrã durante a Grande Depressão, ganhou um Óscar ainda em criança, e fez carreira até aos 20. Defendeu a intervenção norte-americana no Vietname, foi diplomata no Gana e na Checoslováquia, venceu um cancro de mama há mais de 40 anos. Morreu esta semana, aos 85, na sua Califórnia natal.

Salvador Dalí também não escapou ao fascínio da pequena estrela de cinema. Em 1939, com míseros 11 anos de idade, já a carreira de Shirley Temple chegava aos píncaros e a fama da criança-actriz era global. O pintor catalão não se coibiu, como bom surrealista que era, de lhe tirar a aura de criança. Pintou-a como uma esfinge feroz, ladeada das ossadas do que parece ser uma vítima da sua voracidade. No lugar do rosto da esfinge, Dalí colou uma fotografia da pequena Shirley, de semblante sério, e pintou um morcego por cima da cabeça da jovem. O título da obra dispensa qualquer descrição: Shirley Temple, o Mais Novo e Mais Sagrado Monstro do Cinema do Seu Tempo.

A perversidade de Dalí, que nunca chegou propriamente a afirmar o que sentia pela actriz, foi acompanhada, na época, por uma diatribe do consagrado Graham Greene, que escreveu uma crítica pouco abonatória num semanário britânico a propósito de uma coreografia da menina em Wee Willie Winkie, de 1937. Greene chega a sugerir que a pequena lança olhares sedutores aos homens e lhes desperta o “desejo”.

À parte a irritação de Dalí e de Greene a propósito da menina-actriz, a carreira de Shirley Temple – que terminou para o cinema pouco depois de a estrela completar uns míseros 21 anos – foi uma imensa unanimidade.

‘Revelada’ aos três anos, ela foi das primeiras crianças a ascender ao Olimpo de Hollywood. A figura de miúda do lado era comprovada pela origem – filha de George Temple, um bancário, e de Gertrude Krieger, provinha daquela classe média que a Grande Depressão de 1929 estava a destruir rapidamente. A mãe percebeu-lhe o talento precoce, e levou-a a uma escola de dança para crianças em Los Angeles. Foi lá que um agente de um estúdio cinematográfico a descobriu, já com os caracolinhos como a imagem de marca que lhe ficaria para sempre, à maneira de uma estrela de cinema da época (adulta), Mary Pickford.

A ideia da rapidíssima ascensão é ilustrada no ano de 1934: com apenas seis anos de idade, Shirley entrou em sete filmes. Pouco depois receberia um Óscar especial pelo incansável desempenho desse ano. Era a mais nova a recebê-lo na época.

A precocidade foi tanta que mais tarde Shirley assumiria, numa entrevista, que tinha deixado de acreditar no Pai Natal aos seis anos. “A minha mãe levou-me a vê-lo a uma loja e ele pediu-me um autógrafo”, cita o jornal britânico The Guardian.

Tornou-se rapidamente uma instituição nacional. Roosevelt, o Presidente que tirou os EUA do pântano económico com o New Deal, exaltava-a em público, louvando-lhe o optimismo que passava. Shirley foi dos primeiros ícones cinematográficos a passar a figura de merchandising – bonecas Shirley Temple, brinquedos e até fatos de banho.

Com a carreira mais que consolidada aos 10 anos, restava aos produtores o temor da passagem da estrela à idade adulta. Shirley, dizem os entendidos, fê-la sem sobressaltos. Com um ligeiro interregno aos 12, quando os pais a mandaram de volta à escola, à actriz pouco faltava para percorrer todo o trajecto até ao panteão. Já tinha sido dirigida por colossos como John Ford e tinha contractos com outros nomes não menos colossais, como David O. Selznick. Os últimos papéis não foram de somenos – contracenou, por exemplo, com David Niven em Consequências de um Beijo, em 1949, a sua última aparição no grande ecrã.

Seguiram-se dois casamentos, filhos, e uma segunda fase na carreira, desta vez na política. A partir dos anos 60, a menina bonita renasce como Shirley Temple Black – o apelido do último marido – e candidatou-se ao senado da Califórnia pelo Partido Republicano, que nunca abandonou. Perdeu a vaga ao senado para um opositor à guerra do Vietname (Shirley era apoiante), mas seria conduzida à vida diplomática, como embaixadora no Gana entre 1974 e 1976, durante o governo de Gerald Ford, e na Checoslováquia, logo a seguir à queda do comunismo, entre 1989 e 1992, durante o mandato de George Bush-pai.

Pelo meio, ainda superou um cancro de mama, em 1972. Teve de passar por uma mastectomia radical, mas arranjou forças para encabeçar uma campanha de sensibilização das mulheres para o problema. Superou a maleita, seguiu carreira, e mesmo agora, no momento da morte, fica para a história do cinema recordada como uma eterna criança.

ricardo.nabais@sol.pt

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:48

mytaste.pt



Síguenos en Twitter

Siguenos en Facebook


contador de visitas