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PORQUE HOJE `E DIA DE SAO VALENTIM

por sopa-de-letras, em 14.02.14

 

Miguel Esteves Cardoso e Maria João Pinheiro

O MEC já escreveu que O amor é fodido. Vivia em Lisboa, em sofrimento, à beira de uma síncope. Tinha graça, juventude, hordas de seguidores. Agora está na fase de achar Como é linda a puta da vida (novo livro que colige crónicas dos últimos anos). Este é o tempo da Maria João, da vida em Colares, de achar que nesta puta (que é a vida) cabem os pássaros e os cães que se ouviram durante a entrevista. E o sol que incomodava os seus olhos claros.

Ela sempre foi quem é. Radiosa. Um dia, disse-lhe que ele podia estar calado.  

A história desta entrevista tem um ano.

Eu queria entrevistar o MEC com a Maria João. Se eles não topassem, podia ser só com o MEC (ele falaria da Maria João). Mas com a Maria João é que era. Porque ela é a vida da vida dele. O retrato seria outro.

Então veio o cancro. No cérebro. Depois do da mama. E quando se suspirou de alívio, ele pediu-me que lhes desse tempo para estar.

Tempo para estar era uma coisa que o MEC não se permitia antes da Maria João. E cujo sentido aprendeu.

Passaram umas aves, umas ervas de cheiro, reflexões sobre a escolha, a liberdade, o tempo (tudo com letra maiúscula), os livros que lê, o neto António, as gémeas Sara e Tristana. Passaram muitos dias de um Inverno danado e já fazia sol quando nos encontrámos em Colares, para a entrevista.

Miguel Esteves Cardoso (1955) vive “tão feliz da vida” com Maria João Pinheiro (1968) que não parece ser preciso mais nada. Casaram em 2000. Os dois explicam aos cínicos como é que isso é possível. Falam uma fala deles (além de falarem em português, a língua dos dois, e de o Miguel falar em inglês, a língua da mãe). Como se fosse uma música só deles.

   

 

A Maria João é para si dream come true [sonho tornado realidade]…

Miguel Esteves Cardoso – É.

 

… ou é true come dream [realidade tornada sonho]?

É dream come true. Só que eu nunca sonhei que existisse uma pessoa como ela. Não é uma coisa que se consiga sonhar. Uma pessoa só consegue sonhar com aquilo que mais ou menos conhece, com os elementos de imaginação [de que dispõe]. A Maria João é real. É bom ela ser real.

 

Por isso perguntei se era true come dream.

MEC – Pois. Essa pergunta é boa. Eu sonho com ela, mas é sempre melhor quando acordo. É verdade.

 

Elabore sobre isso. Para perceber os movimentos, do sonho e da realidade.

MEC – Muitas vezes, quando uma pessoa sonha, ou tem um pesadelo, acorda, e é um alívio estar na nossa cama. Muitas noites, muitas manhãs, acontece-me sonhar..., aqueles sonhos estúpidos ou menos bons. Acordo, e a Maria João está ao meu lado.     

 

Na canção, os The Platters cantam: “You’re my dream come true, my one and only you”. A variação, o true come dream, faz que se olhe para a realidade com olhos de magia. Mas isso não é imediato.

MEC – Não, não é. Ela tem os olhos mágicos.

Maria João – Tu é que tens os olhos mágicos.

MEC – O amor é isso: é ver que a pessoa que a pessoa quer e gosta é real. É real, é verdadeira, é humana. Passado tanto, tanto tempo... Sempre senti que a conhecia. Mas ela nunca me surpreendeu.

 

Como assim?

MJ – É porque sou previsível.

MEC – Ela é sempre maravilhosa. Vivia muito desconfiado nos, sei lá, nos primeiros meses e anos. Desconfiava que ela tivesse uma Maria João verdadeira que não fosse assim mágica. Que fosse prática e muito diferente. Que houvesse – há sempre – uma pessoa escondida dentro dela. Mas não. Não há.  

 

Para si, o Miguel começou por ser um dream come true? E foi sempre este Miguel?

MJ – O Miguel é uma pessoa. Uma pessoa maravilhosa. Um tesouro.

 

Isto está a ficar conversa cor-de-rosa.

MEC – Os casais que se zangam e as pessoas sozinhas vão achar isto muito irritante.

MJ – Ficam furiosas.

MEC – Tornámo-nos no casal Schmoopy do Seinfeld [na série, os dois elementos do casal estão sempre a chamar Schmoopy um ao outro]. O casal ultra-irritante, em que um termina as frases do outro.

 

Maria João, conte como foi para si.

MJ – Foi conhecer a pessoa mais generosa, perfeita, bondosa. A alma mais pura.

MEC – Devíamos dar mais entrevistas. Eu nunca ouço isto. Estou inchado. Se achavas isso antes, porque é que não disseste?

MJ – Desculpa! [gargalhada]

MEC – Se eu soubesse que era tido em tão alta conta...

 

Comecemos do princípio. Quando é que o conheceu? Quando é reparou nele? Quando é que o quis?

MEC – Escrevi-lhe uma carta. Uma carta desonesta.

MJ – Eu já o conhecia.

MEC – Uma carta a convidá-la...

MJ – Já o conhecia, não o conhecendo.

MEC – A convidá-la para fazer a locução de uma série de peças radiofónicas do [Samuel] Beckett. Em português. Ela era terapeuta da fala e tinha uma voz óptima.

 

Como é que era a carta?

MEC – Fiz muitos rascunhos, muitos rascunhos. E não sei quê. Tudo no computador. Depois revi tudo muito cuidadosamente e escrevi a carta à mão.

MJ – A carta era linda.

MEC – Copiei à mão. E se me enganava ia buscar outra folha. Num papel muito impressionante. Um papel americano que mandei fazer de propósito.

 

Porque é que quis que ela dissesse os textos de Beckett?

MEC – Não, eu queria era conhecê-la. [riso]

MJ – Era um truque.

 

Costumava vê-la na televisão (Maria João apresentava a meteorologia na SIC)?

MEC – Só na televisão.

MJ – E viste-me uma vez a dançar, não foi?

MEC – Sim. E fiquei como nunca fiquei antes. Fiquei assim toinggg. Parecia extremamente feliz. E eu: “Ah!!” E luminosa. Risonha. Como se fosse um prémio. Sabe?, um prémio. “Aqui está a tua sorte”. Senti uma ausência de dúvida. Eh pá. Só queria que fosse minha.

MJ – Mas não me falou.

 

Uma ausência de dúvida. Que ela ia ser sua? Que era ela?

MEC – Não. Que era ela que eu queria. Nunca sonhei que pudesse tê-la.

 

Está a fazer género. Já era “o” MEC. Podia ter todas as mulheres que quisesse.

MJ – Exacto.

MEC – Não. Eu escrevi a carta o melhor que podia escrever. Depois vim a saber que ela também tinha desígnios sobre mim.

MJ – Pois tinha. Uma vez estava a ouvi-lo na televisão e disse: “Eu vou-me casar com ele. Eu tenho de me casar com ele”. Não fiz nada para me casar com ele. Mas casámos.

 

Era casar. Não era namorar ou ter um caso.

MJ – Não. Eu – princesa – vou casar-me com ele.

 

Coisa definitiva? Princesa que encontra o seu príncipe?

MJ – Foi mesmo assim!

MEC – É assim todos os dias. É disgusting [nojento].

 

O pretexto do Beckett...

MEC – Foi o mais crível que encontrei (por ela ser terapeuta da fala e ter boa voz). E porque o Beckett tem-me ajudado muito nestes anos. E é o maior escritor de sempre. Gostei muito de traduzi-lo. Ele ajudou-me a traduzi-lo. Era um projecto interessante, de qualquer maneira.

MJ – Podíamos fazer, ainda. 

 

Tinha escrito ao Beckett e ele tinha respondido.

MEC – Sobre o trabalho. Entretanto sei (estou a ler as cartas dele) que respondia a todas as cartas que recebia. Todas, todas, todas.

MJ – Como Freud. Em 24 horas estavam no correio.

MEC – Já viu? Os grandes, grandes homens, e as grandes, grandes mulheres, a Virginia Woolf, respondiam a todas as cartas.

 

Vocês respondem a cartas?

MEC – Eu não.

MJ – Infelizmente.

MEC – O Beckett, mesmo quando estava a ficar cego, respondia. A mim respondeu-me muitas vezes. Tenho cartas de todas as moradas para onde ele ia.

 

Quando respondeu a primeira vez...

MEC – Eu estava na universidade, em Inglaterra. Não estava nada à espera que respondesse.

 

Como é que era a letra dele?

MEC – Pequenina. Muito incerta. Depois mostro-lhe. Escrevia em cartões onde estava impresso Samuel Beckett, em cima. Muito cordial. A agradecer o interesse no trabalho dele. Atencioso. Muito prático.

 

A sua letra é como? Como era a letra da carta que mandou à Maria João?

MJ – Bonita. Muito bonita.

MEC – Era uma letra de antes do computador. Nesse tempo escrevia à mão. [mostra a letra no moleskine]

 

É uma letra muito bem desenhada. Perceptível.

MJ – Esta é uma letra descontraída.

MEC – Quando eu quero, faço mesmo bem.

 

Retomando a pergunta: jogava com o Beckett, o seu autor mais precioso, como se fosse um amuleto? E ele tinha-lhe respondido, no passado.

MEC – Isso não disse. Não usei isso. Seria um bocado... Também só soube há pouco tempo, há duas ou três horas, que ela tinha guardado a carta.

MJ – Tenho as cartas todas.

 

À antiga.

MEC – Pensava que ela se tinha esquecido.

MJ – Há muitos bilhetes, muitas coisas que estão espalhadas pela casa. Mas essas cartas estão juntas.

 

O Miguel tinha um protagonismo social, e sobretudo mediático, diferente do seu (ainda que também aparecesse na televisão). Como é que olhava para ele? Uma coisa é idolatrar uma pessoa, que tem muita graça, que é um génio, que revolucionou o uso da língua portuguesa – todas as coisas que se dizem do MEC. Outra coisa é ser o true de que falávamos no começo da entrevista. Ser uma pessoa de verdade.

MJ – Eu achava-lhe muita graça como escritor. Mas desde o primeiro momento estive com ele como se está com uma pessoa. Nunca como ídolo.

 

Ele não teve de descer do pedestal?

MEC – Ela nunca teve medo nenhum de mim. Ou respeito ou coisa assim. Nunca pensou: “Se calhar estou a dizer asneiras”.

MJ – Nunca. Eu vejo a alma dele.

 

Nessa altura, o Miguel ainda achava que a inteligência, a graça espirituosa, eram os atributos mais atraentes numa pessoa?

MJ – Quando me encontrou? Já tinha desistido [disso].

 

Tem fama de ser sobredotado. É interessante perceber o que é que uma pessoa tão inteligente procura nos outros.

MJ – O que é que ele viu em mim?

 

Pode também pôr assim.

MEC – É a mulher mais bonita que alguma vez vi. Era linda de morrer e podia ser uma víbora. Era uma mulher linda, linda, linda, e isso já era suficiente.

 

Era suficiente?

MEC – É suficiente. É uma beleza bem disposta. Não sei explicar.

 

Foi o sentido da alegria o que mais aprendeu com a Maria João?

MEC – Não é uma beleza frígida ou distante. Ou fechada. Não é uma beleza indesejada. É vaidosa. É uma beleza que sabe que é bonita.

MJ – Achas?

MEC – Acho. E isso combinado com ser uma giraça. (Já não se usa esta palavra.) Ela enche a vista. Apela a todas as coisas que existem em mim enquanto homem.

 

Não respondeu à questão da inteligência.

MEC – Fiquei muito surpreendido quando vi que ela era muito inteligente. Não é justo, mas ela tem um sentido de humor fabuloso, terrível, até, mais perverso do que o meu.

Tenho de prestar atenção. Ela gosta de ser cortejada. Se sente que não é... Aí é que vem a fera. Aí é facas.

 

O que é que achava que ele via em si?

MJ – Amor. Amor. Era a coisa que lhe faltava e que ele encontrou em mim, e eu nele.

MEC – Foi amor desde o princípio. Amor e encantamento. É muito, muito fun [divertido], isto. O tempo era sempre pouco, como é pouco ainda. Não temos tempo, embora estejamos quase sempre juntos.

 

Como é que não sentem fastio? – perguntam-se certos casais, neste momento de língua de fora.

MEC – Não sei. Há casais que se fartam um do outro. Mas se calhar, esses, nunca gostaram um do outro. Nós mantemos a fasquia... (Eh pá, este termo é horrível. Nunca o usei na minha vida.

MJ – Não uses.)

MEC – Nós, à mínima coisa, ou se ela estiver a olhar para outra coisa, fico cheio de ciúmes. Faço uma cena. Também é preciso ter atenção a qualquer desvio ou decadência. Dizemos muito: “Tu dantes rias-te mais comigo. Tu dantes perguntavas mais o que é que eu pensava. Tu dantes falavas mais de ti”. Todos os dias temos isto. Todos os dias há coisas de ciúme, de comparação com o passado, reconciliações (depois de eu quase ter tido um ataque cardíaco).

 

É um fiteiro, não é?

MEC – Não, não sou.

 

Isso do ataque cardíaco não é fita?

MEC – Não. Dói-me mesmo.

MJ – Espero que seja fita.

MEC – Há uma componente de fita, claro.

 

Têm sempre uma vigilância sobre a relação? Vigilância também não é uma boa palavra.

MEC – Mas é vigilância. [riso] As pessoas vão vomitar quando lerem isto.

 

Antes que as pessoas vomitem, vamos falar de quem eram antes de se encontrarem. Ficou outra pessoa, Maria João? Quase tudo o que sabemos de si, resulta das crónicas do Miguel. Aparece como musa, e criatura dele.

MEC – Ela não mudou nada.

MJ – Ele também me inspira.

 

Dê-me coordenadas. O que é que é preciso saber de si?

MJ – Nunca pensei nisso assim. Era eu. Era uma pessoa que gostava de viver e de divertir-se e de aprender.

 

O que é que foi importante na sua vida? O sítio onde nasceu?, os pais que teve?

MJ – Os pais, a família, os amigos.

MEC – Ela tem uma coisa de azar. Antes das doenças [o cancro], teve outras doenças. E de cada vez que gosta de uma coisa, essa coisa deixa de ser fabricada.

MJ – Desaparece.

MEC – Está sempre à espera do pior.

MJ – Sou o beijo da morte.

 

“Sou o beijo da morte” parece um título de Nelson Rodrigues. Que já me ocorreu há pouco. Outro título do escritor brasileiro: “Pouco amor não é amor”.

MEC – É mesmo. Quando as coisas acontecem, ela não está surpreendida. E daí vem o sentido de humor. Um humor muito, muito negro. Eu próprio fico chocado. Há nela uma aceitação, um venha lá, pronto.

 

Dêem um exemplo. Um pouco de negrume, aqui. Senão isto fica muito cor-de-rosa.

MEC – Mas o cor-de-rosa também é uma cor. [Esse humor negro] é sempre uma coisa do momento. Ela não se reprime. É uma pessoa muito liberta, até pelas circunstâncias da sua vida. De ter sido pequenina, mais nova do que as irmãs. Muito criativa. De ter brincado sozinha. Com a autorização dos pais, via os filmes todos que queria. Uma grande liberdade. E por isso diz tudo. É desconcertante.

 

Sempre teve confiança em si? Falemos das coisas que importam.

MJ – É mais uma liberdade, e depois logo se vê, do que uma grande confiança em mim. Também tenho inseguranças.

MEC – Acho que não. Que não tens muitas inseguranças.

MJ – Achas? Está bem.

MEC – Ela queria ser ainda mais... Não sei. Ainda mais ela. É aquela coisa narcísica.

MJ – Qual?

MEC – Aquela: tu gostavas de ser ainda mais tu.

MJ – Mas eu sou eu.

MEC – Gostavas de ser ainda mais um bocadinho.

 

Expliquem lá isso.

MJ – Ele está a dizer que eu gosto de quem sou e que queria ser ainda mais eu. Também não temos muita escolha, não é? Temos de ser nós.

MEC – Eu não era eu. Ela ensinou-me isso. Ensinou-me muito bem a estar à vontade. Eu estava sempre a fingir que era outra coisa que não era. Estava sempre muito ansioso. Muito show off. A tentar disfarçar. Sempre muito mal alaise [pouco à vontade, inadequado]. Sempre a querer fazer graças ou a ser o palhaço da turma. Divertir as pessoas à força. Uma coisa desesperada para que gostassem de mim. Era um trabalho. Detestava.

 

O trabalho era...?

MEC – O trabalho de ser simpático, de divertir as pessoas. Tenho isso desde pequenino. É uma insegurança: não pensar que as pessoas podem gostar de mim só por eu ser eu. Que posso estar calado. Ela disse-me. “Podes estar calado. Não precisas de estar sempre a não sei quantos.”

MJ – Disse-lhe: “Podes descansar”.

MEC – Descansei muito. Descansei. E as pessoas não deixaram de gostar de mim. Grande lição.

 

Quando falou do percurso da Maria João, falou do sentido da liberdade. Que nela pareceu fácil. Mas que não é fácil.

MEC – Pois não.

 

O Miguel, parecendo ter todas as condições para ter essa liberdade, não a tinha.

MEC – Era totalmente reprimido. Muito reprimido. Muito inseguro. E muito falso. É a palavra.

 

Estava sempre a ser “o MEC”? A ser o boneco.

MJ – Ele exige muito dele próprio. [Divertir os outros], fá-lo mais por bondade, até.

MEC – Agora não faço. Agora é muito melhor. A minha mãe sempre me disse que não me importasse com o que os outros pensavam. “Who cares?” [Que importa?] Mas nunca aprendi o que a minha mãe dizia.

 

O que é que dizia o seu pai, que era português?

MEC – O meu pai dizia a mesma coisa. Que não éramos obrigados a gostar uns dos outros. Nem dos irmãos nem dos pais. Tínhamos o direito de formar uma opinião, ou de gostar, ou de não gostar. Podíamos não gostar da nossa mãe ou do nosso pai. Ele também não gostava do pai dele. A minha mãe também não gostava do pai dela. Isso era a liberdade de gostar. Nós só tínhamos que estar com as pessoas de quem gostávamos e conversar com as pessoas com quem queríamos conversar. O meu pai fugia das pessoas de quem não gostava. Fugia mesmo, fisicamente. Saía da sala.

Eu, não sei porquê, não sei se foi do colégio inglês ou de qualquer merda, quando comecei a ficar popular, e a fazer desenhos, como era muito bom aluno, compensava sendo desobediente, fazendo troça. Não sei se foi isso que me deu um gosto pelo poder. E uma maneira de os outros miúdos gostarem de mim.

MJ – Para não te marginalizarem por seres tão bom aluno.

MEC – Diziam-me: “Faz lá...”. E eu fazia. E imitava os professores. Depois vim a saber que a Maria João também fazia isso.

MJ – Só que o fazia sozinha.

MEC – Faz caricaturas, expressões perfeitas, desenhos. Como eu fazia. Essa necessidade [de agradar, de ter graça], era uma coisa que me incomodava. Ficava cansado.

MJ – Exausto.

 

Sentiu-se amado quando era pequeno?

MEC – Amado? Sim. Muito amado. 

 

Tinha uma grande ideia de si mesmo?

MEC – Então não? Estava convencidíssimo. Percebi muito cedo. Uma pessoa tem uma grande ideia de si mesmo aos três, quatro anos, quando começa a ver o que se divertem os adultos. “Isto funciona!”. Dizer aos quatro anos: “Vou ser isto, vou ser aquilo”, e as pessoas ficavam encantadas.

 

O que é que dizia?

MEC – “Vou ser um grande escritor”.

MJ – Com quatro anos, disse à mãe que não ia ter tempo.

MEC – Não foi aos quatro.

MJ – A tua mãe diz que foi. “Nunca vou ter tempo para fazer o que tenho que fazer”.

MEC – Também disse: “Jamais serei um membro do público”. Nunca. Isso com três ou quatro anos. “A member of the public”.

 

Ou seja, não estar na audiência. Quis estar em cima do palco, e não a ver da plateia.

MEC – Sim. Não ver televisão, mas sim aparecer na televisão.

 

Gostava da sua mãe e do seu pai?

MEC – Hum. O meu pai. O meu pai já morreu. Se gostava muito do meu pai? Muito. Claro.

 

Muito? Claro? Acabou de dizer que o seu pai e a sua mãe não gostavam dos pais que tinham.

MEC – Amava muito o meu pai. Amava-o. Mas ele mostrava-se  inteiro. Não escondia. Conheci o meu pai, conhecemos todos, inteiramente. As coisas más e as coisas boas. Porque ele fazia-as todas à nossa frente. Os exageros. Os ciúmes paranóicos da minha mãe. As grandes melancolias.

 

Sem ciúme não há amor, dizia o Nelson.

MEC – E é verdade. Portanto eu amo o meu pai como quem ama uma pessoa que conhece bem. Ele tinha coisas nada boas. A minha mãe também tem coisas nada boas. Eu também. Toda a gente tem coisas nada boas. E isso é que é o amor. Eu não idolatro. O meu pai, se calhar, empurrou-me demasiado, quando eu era pequenino. Conforme as notas. Se não tivéssemos 20, ficava chateado. Já o pai dele tinha feito o mesmo com ele.

 

O que é que fazia o seu pai?

MEC – Era arquitecto naval, mas trabalhava nas pescas. Ele também foi o melhor aluno e não sei o quê. O irmão dele... Pronto. Não interessa. O que interessa é que são pessoas overachievers [vencedoras em tudo]. A minha mãe levava-me livros aos quadradinhos colados debaixo do tabuleiro, quando eu estava a estudar. [riso] Estava sempre a dizer assim: “You’re going to destroyed this child” [Vais destruir esta criança]. E o meu pai a explicar-me química. Até às duas da manhã, três da manhã.

 

E queria lá saber da química...

MEC – Ficava apaixonado. Ao princípio chorava, porque não percebia.

MJ – Ele interessa-se por tudo. Se de repente pensar que vai estudar o ar condicionado, estuda-o completamente.

 

CONTINUA.....

 

ANABELA MOTA RIBEIRO

 

 

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publicado às 20:31

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